Jurados do 'The voice' falam da música brasileira de ontem e de hoje - Dani Morais

Jurados do ‘The voice’ falam da música brasileira de ontem e de hoje

Dani 17-10-09 musica

Antes da pose para a foto, Carlinhos Brown incorporou o espírito do rock e passou seu pandeiro para Michel Teló. O sertanejo entrou no clima e entregou sua sanfona para o roqueiro do grupo, Lulu Santos, que por sua vez colocou nas mãos de Ivete Sangalo sua guitarra. Por pura intuição, Lulu fez um diminuto (um acorde da sanfona), e esse foi o ponto de partida para os técnicos da sexta temporada do “The voice Brasil” começarem os batuques, os “la la las” e soltarem várias outras notas.

Foi esse o tom desta entrevista, que começou logo com uma brincadeira em forma de pergunta: que música brasileira daria uma boa mistura de gêneros musicais?

— “É o amor” — responde Teló, sem pestajenar, citando o sucesso de Zezé Di Camargo e Luciano.

Segundo o jurado, o hit sertanejo tem tudo a ver com os ares do axé, uma combinação que Brown chegou a levar a um trio elétrico do grupo Timbalada em 1999.

— Zezé (que estava no trio como convidado) me perguntou: “Eu vou cantar o quê?”. No carnaval, eu disse: “Axértanejo” — lembra Brown: — A música tem essa capacidade de agregar. Tem um teor de aproximação social.

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“Eva”, um dos maiores hits do axé desde que Ivete a entoava à frente da Banda Eva, foi outra música citada como boa opção para misturar gêneros — antes de cair nas graças da música baiana, a canção fez sucesso com o grupo de pop rock paulista Rádio Táxi nos anos 80.

— “Eva” é a que abre mais possibilidade de usar distorções, com percussão, com tudo — explica Ivete: — No Rock in Rio, por exemplo, ela é a minha música mais rock ‘n’ roll.

Bem entrosados, os quatro transitam facilmente por todos os gêneros: Brown não é só MPB, assim como Ivete não é apenas axé, Lulu não é só rock e Teló não é apenas sertanejo. Acostumados a fazerem misturas nas próprias carreiras, eles não querem rótulos.

— Quando eu estava começando a carreira, não tinha muita percussão na música sertaneja. Lá com o grupo Tradição, para um dos nossos primeiros discos, a gente pegou o pandeiro, o repique e o timbau. Isso em 1999. Eu queria colocar todo esse suingue da Bahia no sertanejo — lembra Teló.

Brown emenda em seguida:

— Nós não temos estilos determinados. Nós, brasileiros, por sermos miscigenados, não temos nem estilo. Um dos maiores sucessos do rock mundial, “Ratamahatta”, do Sepultura, eu que escrevi. E o que eu gosto mesmo é de ter influenciado o Slipknot. Eles usam os surdos, as percussões que ouviram no “Roots” (disco do Sepultura) e usam muito aquela máscara que eu usava no “Cachorro louco”.

Ivete sentencia:

— Nosso país é tão continental, tão diverso. Como a gente transita um pelo universo do outro, fica definitivamente proibida a instauração de uma inquisição musical. Não é possível, não tem como. Por exemplo, Carlinhos tem um disco que tem samba, é incrível, mas Carlinhos faz só samba? Não, Carlinhos também faz samba.

E Lulu complementa:

— Eu defendo que de uma determinada forma cada um olha para sua música de uma ótica diferente. Eu já tive a oportunidade de participar de um disco da Ivete, ela já participou de um trabalho meu. Teló já se deu o trabalho de ir a um show meu cantar comigo, e com o Brown eu me misturo há 20 anos. Por mais que a gente tenha pontos de vista diferentes, a sorte é que, com o meu ponto de vista, o da Ivete, o do Teló e o do Brown juntos, a gente consegue fazer 360°.

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Mas levar essa filosofia para a música que eles fazem pode exigir paciência e insistência para ganhar o mercado.

— Quando eu gravei “Fugidinha”, por exemplo, os caras das rádios não queriam tocar — lembra Teló, ao falar da música dos pagodeiros Rodriguinho e Thiaguinho: — Eles falaram que não era sertanejo, e, sim, um pagode. Ouvi até que eu ia acabar com minha carreira. Mas a gente insistiu, e foi a música mais tocada em 2010.

Lulu tenta explicar:

— O Brasil tem uma forma de consumir música um pouco monotemática. É uma coisa de cada vez, mas vai alternando de alguma forma. Foram quase 20 anos inteiros de pop rock, aí teve um breve período de pagode no início dos anos 90, e em seguida foi o axé, por mais dez anos. Depois foi a vez do sertanejo, e assim por diante.

Se um gênero é melhor que o outro? Isso não entra nem em discussão entre os jurados do “The voice Brasil”. Nem mesmo quando é para dizer quem é melhor: Beatles ou Molejo.

— Depende da circunstância — responde, aos risos, Teló: — Independentemente de a pessoa gostar ou não do que está tocando, ou se ela tem a cabeça fechada, que pelo menos ela tenha respeito.

Ivete complementa:

— Tudo depende da hora. Hoje em dia é tudo playlist. E para cada momento há uma canção, uma energia. A música é uma extensão da pessoa, do que ela sente sobre a vida. É um negócio que alimenta a gente.

Fonte: Leonardo Ribeiro – O Globo
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